DESMUNDO – A história do Brasil sem clichês.

Nunca havia me interessado por assistir a filmes nacionais, por possuir aquele preconceito geral de que filme brasileiro não presta, mas ao utilizar dos mesmos em aulas para alunos de intercâmbio, isso se desfez imediatamente. Principalmente com o último que eu assisti, chamado Desmundo.
Já havia lido sobre a película em alguma sinopse, mas meu preconceito me impedia de procurar assistir por conta própria. Mas ao ver o filme, me deparei com a idéia de como tem sido feito filmes(nem todos) com qualidade internacional, e abordando um tema tão corriqueiro, mas com uma roupagem totalmente nova: a história do nosso país.
Pra quem ainda não assistiu o filme mas se interessa, não espere pelos personagens semi-folclóricos como Pedro Álvares Cabral ou Pero Vaz de Caminha correndo atrás de índias nuas com suas carinhas de safadas, pelo meio do mato, ridicularizando assim a nossa história.
Desmundo é um filme adulto, sério, e crú, longe de qualquer sátira sobre a história tupiniquim, e mostrando um universo mais realista e cruel, de forma a fazer o telespectador compreender como toda essa carnificina sócio-histórica começou.
Em síntese, Desmundo é um filme baseado em um romance literário omônimo, que conta as desventuras de Oribela de Corvilhã, uma orfã portuguesa, forçada a vir morar no Brasil e se casar com o primeiro que lhe oferecesse interesse em desposá-la.
O problema é que Oribela não pedir para vir, muito menos se casar com um dos portugueses vividos no Brasil, que por sinal, não se diferenciavamm muito dos selvagens da terra, com suas roupas sujas, e barbas enormes, vivendo como verdadeiros animais em vilarejos primitivos.
Mas a moça é obrigada a se casar com um tipo desse, no caso, com Francisco de Albuquerque, um senhor de engenho, porém com um estilo de vida de jagunço. Apesar de violentada e açoitada por seu ainda desconhecido companheiro, seu único pensamento é embarcar no primeiro navio que parta para Portugal.
Sua única esperança se deposita em Ximeno Dias, um judeu que havia se convertido a pouco ao cristianismo, também explorador da nova terra, mas com um nível de cultura e sensiblidade pouco acima de Francisco.
Talvez aí seja o único clichê do filme, o triangulo amoroso entre Francisco, Oribela e Ximeno, com clima de novelão, mas nada que comprometa o filme, pois todo o contexto é muito mais interessante e enriquecedor.
O que me chamou mais a atenção, é que os produtores do filme se preocuparam em desenvolver todas as falas utilizando-se do português arcaico falado na época(ano de 1570 nas história do romance), e antes que alguém pense que isso foi influenciado pelo filme Paixão de Cristo de Mel Gibson, Desmundo foi lançado em 2003, ou seja, um ano antes.
Enfim, Desmundo mostra que ainda existe vida inteligente no cinema nacional, que quando investe em filmes de época, procura abordar as questões históricas de uma maneira muito mais realista e racional, do que fantasiosa e alienadora.
De versões folclóricas e deturpadas, já bastam os livros didáticos de história do Brasil.
Escrito por Mero Espectador às 23h08
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Quem foi a pátria que me pariu?
 
A impressão que se dá, é que o brasileiro adora demonstrar sua hipocrisia, principalmente em assuntos alheios ao nosso contexto.
Mês passado foi aprovado em Portugal a lei do aborto, conseqüência de um plebicito onde a população teve a oportunidade de votar sua opinião sobre, o que resultou numa maioria favorável à legalização do aborto.
O povo brasileiro, principalmente a turma que não tem mais o que fazer a não ser ficar em cima do muro do vizinho, enquanto sua casa pega fogo, e resolveu mobilizar meia dúzia abestalhados moralistas, e irem às ruas manifestar contra o aborto.
Várias cidades fizeram essa manifestação, com apoio da igreja católica, é claro, mas eu fico imaginando a cena: pessoas com suas faixas e cartazes, e provavelmente com ideologias religiosas estampadas em suas caras de pau, protestanto "não ao aborto", e passando perto de crianças abandonadas nas ruas, aproveitando a aglomeração para pedir uns trocados ou mesmo um prato de comida, e os eufóricos abobalhados anti-aborto diziam:
- Saia daqui moleque! Não está vendo que estamos aqui reunidos para manifestar contra o aborto, você está atrapalhando nossa passeata! Fora!
- Mas eu tô com fome, e só queria um trocado pra comer um lanche – retruca o garoto de rua.
- Eu sou lá seus pais pra te dar trocado, garoto?! Já falei pra sumir da minha frente! – enfatiza algum carola deslumbrado.
Aí eu lanço a pergunta: Que aborto estamos combatendo afinal?! Daquele em que acaba com aquele ser que ainda se encontra em sua forma fetal, ou o aborto social que abondona e exclui os seres já nascentes, mas ainda em formação física, moral, psicológica e afetica?
Como podemos condenar o "assassinato silêncioso" feito em clínicas clandestinas, estas por sinal faturam milhões no mercado ilegal, e continuar velando nossa omissão para com o descaso com as gerações que aí estão, sem nenhuma condição de sobrevivência ou mesmo de uma formação efetiva de cidadão brasileiro?
Isso tudo se explica pela hipocrisia, já citada no início deste texto, porque nós gostamos de "encher a boca com discursos vazios", para que o restante da massa ignara se sensibilize e se deixe levar pelo modismo discursivo, e pela conveniência eleitoreira dos nossos ilustres políticos, que nada mais fazem do que se aliar a quem tem o poder nas mãos, e a ideologia que algum partido político ainda possuia, é jogado no lixo.
Assim são nossas crianças, todas jogadas no lixo, e ainda levantamos nossas crenças doutrinárias religiosas para defender quem ainda nem teve a oportunidade(e provavelmente não está perdendo muita coisa) de conhecer esse mundo tão doente e hipócrita.
Escrito por Mero Espectador às 19h07
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